Primeiras fotografias e curiosidades de personagens históricas

Antes de existirem os famosos, a fama e o retrato, existiu um acidente: uma exposição fotográfica tão longa que apagou uma cidade inteira da imagem, deixando por acaso o primeiro ser humano alguma vez fotografado. Estas são algumas das primeiras fotografias da história — de gente, de um rosto, de um momento — e o que revelam, sem querer, sobre como era retratar-se antes de retratar-se ser fácil.
O primeiro ser humano fotografado — por acidente (1838)
Louis Daguerre fotografou o bulevar do Templo, em Paris, num dia qualquer, com uma exposição de quatro a cinco minutos — o trânsito normal de peões e carruagens movia-se depressa demais para deixar rasto, pelo que a rua inteira aparece completamente vazia, fantasmagórica. Só uma figura permanece visível: um homem parado no canto inferior esquerdo, com uma perna apoiada num caixote, enquanto alguém lhe limpava os sapatos. Ficou tão imóvel durante tanto tempo — provavelmente sem saber que estava a ser fotografado — que se tornou, sem o pretender, a primeira pessoa captada por uma câmara na história. Nunca se soube o seu nome.
O primeiro selfie da história (1839)
Robert Cornelius, um químico da Filadélfia interessado na fotografia então incipiente, colocou-se diante da sua própria câmara no quintal do negócio da família, tirou a tampa da objetiva, correu até se posicionar no enquadramento, esperou mais de um minuto imóvel, e voltou a tapar a objetiva. No verso da placa escreveu à mão: "The first light picture ever taken" ("a primeira fotografia de luz alguma vez tirada"). Não exagerava por completo — é, com toda a evidência disponível, o autorretrato fotográfico mais antigo que se conserva. O seu olhar ligeiramente despenteado e a expressão insegura perante a câmara são, 180 anos antes do Instagram, exatamente os mesmos nervos de qualquer pessoa a tirar uma fotografia pela primeira vez.

Retratar o poder: Lincoln perante a câmara (1863)
Na década de 1860, a fotografia já era uma ferramenta política reconhecida — Abraham Lincoln chegou a dizer que um retrato tirado por Mathew Brady, juntamente com o seu famoso discurso no Instituto Cooper, o tinha ajudado a ganhar a presidência. Este retrato em concreto, obra de Alexander Gardner, foi tirado a 8 de novembro de 1863 — apenas onze dias antes do discurso de Gettysburg, um dos textos mais citados da história dos EUA. É um dos poucos elos visuais diretos que existem entre o rosto do Lincoln real e o momento exato em que escrevia as 272 palavras que hoje se ensinam em qualquer escola americana.

Curiosidade: os "fantasmas" que a própria técnica criava
A rua vazia do Boulevard du Temple não foi um caso isolado — é uma consequência direta de como funcionava a fotografia primitiva. Com exposições de vários minutos, qualquer coisa em movimento simplesmente não deixava marca suficiente para ficar registada; só o imóvel se fixava na placa. Isto gerou, sem que ninguém o planeasse, um género inteiro de fotografias com ruas e praças aparentemente desertas em pleno dia, e alimentou mais tarde — já com exposições mais curtas mas ainda imperfeitas — a fraude da "fotografia de espíritos" na era vitoriana: duplas exposições deliberadas que faziam aparecer figuras translúcidas junto de pessoas reais, vendidas a famílias enlutadas como prova de contacto com os seus mortos. Foi um dos primeiros usos documentados da manipulação fotográfica com fins comerciais — o tema que abordamos com mais casos no artigo sobre fotos falsas e manipuladas.
Porque continuam estas fotos a ser extraordinárias
Nenhuma das pessoas nestas imagens sabia que estava a inventar algo — nem o homem sem nome do bulevar, nem Cornelius a correr para a sua própria câmara, nem sequer Lincoln, que já conhecia o poder político de um bom retrato mas não podia imaginar que esse em concreto seria estudado 160 anos depois. Comparado com a facilidade de hoje — tirar o telemóvel, enquadrar, disparar, pronto num segundo — cada uma destas fotografias custou minutos de imobilidade absoluta, química instável e, em mais de um caso, pura sorte. Vale a pena lembrá-lo da próxima vez que apagares uma fotografia por não gostares de como ficou.
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